quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Imparcialidade?

Sabe aqueles homenzinhos - quase sempre de preto - correndo pelo campo em um jogo de futebol, ou parados ao lado do campo com uma bandeirinha na mão? Pois é, adivinha? São juízes de futebol!
Isso mesmo. São eles que determinam um impedimento, um pênalti, uma falta. Eles observam cada detalhe - ou, pelo menos, tentam - e decidem marcar ou não uma falta. Se quiserem e se esforçarem podem definir o rumo de um jogo.

Mas um juiz não é um robô insensível ou preciso em suas decisões. Pelo contrário, ele está sempre sob pressão constante e de todos os lados. Está em suas mãos a decisão de um jogo.

Um juíz imparcial é mera utopia. Um juíz que não toma decisoões erradas e parciais - mesmo que inconscientemente - não existe.

Um juís de futebol é um imperador que tem como império um campo de futebol. Ele toma as decisões. Estando erradas ou não, ele é autoridade maior. Não existe uma votaçao ou vários pontos de vista, apenas o dele. E, mesmo se errar, já era. Está feito. Não tem como voltar atrás.
Alguma vez ja foi visto um juiz mudar de decisão ao ouvir os jogadores? Ou melhor, alguma vez um juíz já parou para ouvir um jogador? Nunca. Ok, é até entendível que o tempo está correndo, e não dá para ficar de ladainha. Mas é incrível a pose de arrogância que um juíz exibe ao sair de um bolinho de jogadores irados com um cartão erguido no ar.

Ele pode até ter noção de que errou, que tomou uma decisão precipitada; mas nao adianta, a partir do momento que o apito é soprado, já era. Pode vir todos os jogadores, de ambos os lados, o juiz empina a cabeça, ajeita o corpo e ergue o já esperado - nessas situações - cartão. Os jogadores voltam as suas posições, putos da vida, xingando até o papagaio do juiz.

Ser juiz de futebol é uma profissão que possui um certo grau de dificuldade, assim como qualquer outra. Um juiz correto tenta ser imparcial ao máximo. Tenta não ter conceitos pré-concebidos e manter a mente aberta. Mas, admitamos, é impossível.

A todo momento, sofremos todo tipo de abordagem, visual, auditiva, etc. E cada abordagem fica amarzenada no nosso inconsciente, querendo ou não. Ao entrar uma sala capitamos todos os estímulos, mas não nos damos conta disso. Mas, acredite, está lá. O nosso cérebro apenas dispensou os detalhes não-importantes, como o descascado da parede, o sofá torto, a revista fora de lugar. Ele percebeu e amarzenou, mas não priorizou.

Isso acontece com um juíz. Ele pode estar em casa, tomando a sua cerveja de domingo, tranquilão. E, de repente, ele ouve um barulho na janela. Jogaram uma pedra nela. Ele se assustou tanto que derramou a última latinha de cerveja toda em cima do sofá novo. Ele fica irado, corre para a janela e vê um moleque correndo ao longe. Ele está com uma camisa do Cruzeiro. Mas o juiz mal percebe que xinga: "Cruzeirense filho de uma puta!". Ele só consegue pensar no dinheiro que terá de desembolsar para consertar os rachados no vidro. Ele não odeia um cruzeirense, mas um menino que jogou uma pedra na sua janela que, por acaso, usava uma blusa do Cruzeiro. E, ao xingar o garoto, ele, involuntariamente, usou a única característica visível e reconhecível, a camisa do time.

É obvio que ele não ficará com um ódio mortal do time. Idiotice pensar isso. Mas ao apitar um jogo do Cruzeiro, inconscientemente, la no fundinho mesmo, ele se lembrará do garoto que jogou pedra em sua janela, da grana que teve que gastar com o conserto e a falação da esposa na sua cabeça. Ele não vai pensar: "Hora da vingança: vou ferrar com o jogo!".

Mas ele pode, inconscientemente, ser mais severo em uma falta leve, ou marcar um impedimento desnecessário, sem nem perceber isso. Ele pode nem estar lembrando da janela ou do garoto, mas a informação está sempre ali, presente no seu inconsciente. E, essa informação, assim como qualquer outra, influencia em suas decisões.

O que se deve fazer, então? Usar máquinas? Claro que não, tem certos detalhes que apenas um humano pode perceber. Usar vários juízes? Nem pensar, já pensou a discussão?!

Achar uma solução é complicado. Talvez, se tivessem outros juízes nos bastidores sempre em contato com o juiz em campo, eles poderiam dar suas opiniões - e só isso - e o juiz em campo decidiria, juntando suas percepções com as deles. Ele ainda seria o imperador, mas ao menos teria alguns conselheiros para assumirem juntos a culpa.

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