quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Possibilidades

       Sucesso? Dispensável. Nunca foi seu objetivo. Todos os lugares pelos quais passara, as pessoas que conhecera. Era tudo tão banal quando se concentrava na sua existência. Não era egocêntrica, era apenas uma pessoa maravilhada, apaixonada com o seu próprio ser, seus pensamentos, seu “eu”.
Vivia intensamente, porque vivia em si mesma. Sentia-se extremamente elétrica, viva, quando escrevia. Quando outro mundo surgia em sua cabeça, tantas possibilidades. Tudo criado a partir dela, do seu ser, das suas muitas dúvidas e poucas certezas. Não tentava agradar aos outros ou buscar a gloria. Escrevia porque necessitava. Era seu elixir da vida. As proteínas, vitaminas, que nutriam seu corpo, eram nada se comparadas com o poder da escrita. O coração palpitante, as mãos suadas, a energia que não acabava.
Quando sua cabeça girava com idéias, possibilidades; não se dava o limite do pudor. Não parava para pensar em como afetaria os outros ou a sociedade com seus pensamentos mais eloqüentes e profundos, quando dava voz às dúvidas e necessidades que todo ser possui; apenas se libertava.
Sentou-se na beirada da janela e olhou o céu cinza. Esse clima a balançava. Há dias não via o sol. Na verdade, há dias não saía de casa, a não ser para o estritamente necessário. Estava consumida por se própria e as possibilidades em sua mente. Levou a xícara à boca, mas mal sentiu o gosto amargo do que tomava. Já estava longe, trancada em seu próprio mundo suas possibilidades, sua vida.
Quando finalmente acordou do seu torpor de idéias, percebeu que tinha ficado horas submersa em si mesma. Mas a energia ainda alimentava seu corpo e seu cérebro pedia por mais. Mais liberdade. Ele gritava em sua prisão óssea, o crânio. Ele queria expor para o mundo a si mesmo, suas dúvidas, suas buscas, seus enigmas, seu poder. Ela não mais tentava se controlar ou se distrair, apenas se deixava levar com um caderno e uma caneta a mão. Ria do passado. Ria das vezes em que pensara estar ficando louca, delirante. Mas agora entendia que o turbilhão em sua cabeça que a inebriava, era ela mesma. Seu mais puro e poderoso ser. Não se prendia mais aos conceitos pré-concebidos que todos possuíam de si mesmos, aprendera a aceitar e a buscar o que era.
Tudo o que escrevia era a mais pura verdade. A mais pura essência humana. A própria vida que continha dentro de si mesma. Ela libertava toda essa vida ao escrever. E após o término se sentia morta, exaurida. E logo em seguida estava vivendo de novo. Inebriada em suas possibilidades. Era quase um vício. Mas um vício pela vida. Ela não escolhera ser assim, ela simplesmente era o que era. Necessitada pela vida, os mundos e as possibilidades que criava.
Ela vivia para criar vida.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Imparcialidade?

Sabe aqueles homenzinhos - quase sempre de preto - correndo pelo campo em um jogo de futebol, ou parados ao lado do campo com uma bandeirinha na mão? Pois é, adivinha? São juízes de futebol!
Isso mesmo. São eles que determinam um impedimento, um pênalti, uma falta. Eles observam cada detalhe - ou, pelo menos, tentam - e decidem marcar ou não uma falta. Se quiserem e se esforçarem podem definir o rumo de um jogo.

Mas um juiz não é um robô insensível ou preciso em suas decisões. Pelo contrário, ele está sempre sob pressão constante e de todos os lados. Está em suas mãos a decisão de um jogo.

Um juíz imparcial é mera utopia. Um juíz que não toma decisoões erradas e parciais - mesmo que inconscientemente - não existe.

Um juís de futebol é um imperador que tem como império um campo de futebol. Ele toma as decisões. Estando erradas ou não, ele é autoridade maior. Não existe uma votaçao ou vários pontos de vista, apenas o dele. E, mesmo se errar, já era. Está feito. Não tem como voltar atrás.
Alguma vez ja foi visto um juiz mudar de decisão ao ouvir os jogadores? Ou melhor, alguma vez um juíz já parou para ouvir um jogador? Nunca. Ok, é até entendível que o tempo está correndo, e não dá para ficar de ladainha. Mas é incrível a pose de arrogância que um juíz exibe ao sair de um bolinho de jogadores irados com um cartão erguido no ar.

Ele pode até ter noção de que errou, que tomou uma decisão precipitada; mas nao adianta, a partir do momento que o apito é soprado, já era. Pode vir todos os jogadores, de ambos os lados, o juiz empina a cabeça, ajeita o corpo e ergue o já esperado - nessas situações - cartão. Os jogadores voltam as suas posições, putos da vida, xingando até o papagaio do juiz.

Ser juiz de futebol é uma profissão que possui um certo grau de dificuldade, assim como qualquer outra. Um juiz correto tenta ser imparcial ao máximo. Tenta não ter conceitos pré-concebidos e manter a mente aberta. Mas, admitamos, é impossível.

A todo momento, sofremos todo tipo de abordagem, visual, auditiva, etc. E cada abordagem fica amarzenada no nosso inconsciente, querendo ou não. Ao entrar uma sala capitamos todos os estímulos, mas não nos damos conta disso. Mas, acredite, está lá. O nosso cérebro apenas dispensou os detalhes não-importantes, como o descascado da parede, o sofá torto, a revista fora de lugar. Ele percebeu e amarzenou, mas não priorizou.

Isso acontece com um juíz. Ele pode estar em casa, tomando a sua cerveja de domingo, tranquilão. E, de repente, ele ouve um barulho na janela. Jogaram uma pedra nela. Ele se assustou tanto que derramou a última latinha de cerveja toda em cima do sofá novo. Ele fica irado, corre para a janela e vê um moleque correndo ao longe. Ele está com uma camisa do Cruzeiro. Mas o juiz mal percebe que xinga: "Cruzeirense filho de uma puta!". Ele só consegue pensar no dinheiro que terá de desembolsar para consertar os rachados no vidro. Ele não odeia um cruzeirense, mas um menino que jogou uma pedra na sua janela que, por acaso, usava uma blusa do Cruzeiro. E, ao xingar o garoto, ele, involuntariamente, usou a única característica visível e reconhecível, a camisa do time.

É obvio que ele não ficará com um ódio mortal do time. Idiotice pensar isso. Mas ao apitar um jogo do Cruzeiro, inconscientemente, la no fundinho mesmo, ele se lembrará do garoto que jogou pedra em sua janela, da grana que teve que gastar com o conserto e a falação da esposa na sua cabeça. Ele não vai pensar: "Hora da vingança: vou ferrar com o jogo!".

Mas ele pode, inconscientemente, ser mais severo em uma falta leve, ou marcar um impedimento desnecessário, sem nem perceber isso. Ele pode nem estar lembrando da janela ou do garoto, mas a informação está sempre ali, presente no seu inconsciente. E, essa informação, assim como qualquer outra, influencia em suas decisões.

O que se deve fazer, então? Usar máquinas? Claro que não, tem certos detalhes que apenas um humano pode perceber. Usar vários juízes? Nem pensar, já pensou a discussão?!

Achar uma solução é complicado. Talvez, se tivessem outros juízes nos bastidores sempre em contato com o juiz em campo, eles poderiam dar suas opiniões - e só isso - e o juiz em campo decidiria, juntando suas percepções com as deles. Ele ainda seria o imperador, mas ao menos teria alguns conselheiros para assumirem juntos a culpa.