Vivia intensamente, porque vivia em si mesma. Sentia-se extremamente elétrica, viva, quando escrevia. Quando outro mundo surgia em sua cabeça, tantas possibilidades. Tudo criado a partir dela, do seu ser, das suas muitas dúvidas e poucas certezas. Não tentava agradar aos outros ou buscar a gloria. Escrevia porque necessitava. Era seu elixir da vida. As proteínas, vitaminas, que nutriam seu corpo, eram nada se comparadas com o poder da escrita. O coração palpitante, as mãos suadas, a energia que não acabava.
Quando sua cabeça girava com idéias, possibilidades; não se dava o limite do pudor. Não parava para pensar em como afetaria os outros ou a sociedade com seus pensamentos mais eloqüentes e profundos, quando dava voz às dúvidas e necessidades que todo ser possui; apenas se libertava.
Sentou-se na beirada da janela e olhou o céu cinza. Esse clima a balançava. Há dias não via o sol. Na verdade, há dias não saía de casa, a não ser para o estritamente necessário. Estava consumida por se própria e as possibilidades em sua mente. Levou a xícara à boca, mas mal sentiu o gosto amargo do que tomava. Já estava longe, trancada em seu próprio mundo suas possibilidades, sua vida.
Quando finalmente acordou do seu torpor de idéias, percebeu que tinha ficado horas submersa em si mesma. Mas a energia ainda alimentava seu corpo e seu cérebro pedia por mais. Mais liberdade. Ele gritava em sua prisão óssea, o crânio. Ele queria expor para o mundo a si mesmo, suas dúvidas, suas buscas, seus enigmas, seu poder. Ela não mais tentava se controlar ou se distrair, apenas se deixava levar com um caderno e uma caneta a mão. Ria do passado. Ria das vezes em que pensara estar ficando louca, delirante. Mas agora entendia que o turbilhão em sua cabeça que a inebriava, era ela mesma. Seu mais puro e poderoso ser. Não se prendia mais aos conceitos pré-concebidos que todos possuíam de si mesmos, aprendera a aceitar e a buscar o que era.
Tudo o que escrevia era a mais pura verdade. A mais pura essência humana. A própria vida que continha dentro de si mesma. Ela libertava toda essa vida ao escrever. E após o término se sentia morta, exaurida. E logo em seguida estava vivendo de novo. Inebriada em suas possibilidades. Era quase um vício. Mas um vício pela vida. Ela não escolhera ser assim, ela simplesmente era o que era. Necessitada pela vida, os mundos e as possibilidades que criava.
Ela vivia para criar vida.